Prayer is the soul’s sincere desire

“Prayer is the soul’s sincere desire,
Uttered, or unexpressed;
The motion of a hidden fire
That trembles in the breast.

Prayer is the burden of a sigh,
The falling of a tear;
The upward glancing of an eye
When none but God is near.

Prayer is the simplest form of speech
That infant lips can try;
Prayer the sublimest strains that reach
The Majesty on high.

Prayer is the Christian’s vital breath,
The Christian’s native air;
His watchword at the gates of death;
He enters rest with prayer.

The saints in prayer appear as one,
In word, and deed, and mind;
While with the Father and the Son
Sweet fellowship they find.

O Thou, by whom we come to God,
The Life, the Truth, the Way,
The path of prayer Thyself hast trod—
Lord, teach us how to pray.”

 

Written by James Montgomery.

Anúncios

O sol não brilha para si mesmo

“Nada na natureza vive para si mesmo. Os rios não bebem sua própria água, as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo e as flores não espalham sua fragrância para si. Jesus não se sacrificou por si mesmo. Viver para outros é uma regra da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja a situação em que você se encontra, continue fazendo o bem aos outros” – Jorge Mario Bergoglio

O perfume quebrado

Algumas horas antes Elisa havia comprado uma bolsa nova em uma das lojas do centro, ela que tinha arrumando o cabelo, pintado às unhas e tirado as sobrancelhas. Elisa queria impressionar seu novo namorado, os dois tinham combinado de assistirem a um filme na tarde daquele sábado, Elisa estava animada. Eram duas horas da tarde, ela estava no centro da cidade desde as dez horas da manhã, correndo pra lá e pra cá, resolvendo uma coisa e outra, e, entre um afazer e outro ela ainda encontrou tempo para produzir-se para o namorado Marcelo, que, havia combinado com Elisa de encontra- lá na frente da matriz da praça central às três horas da tarde em ponto. Mas Elisa acabou atrasando-se um pouco, ela queria comprar um presente para impressionar Marcelo. O perfume escolhido, uma beleza, Balbec, edição especial, o presente embrulhado com cuidado, o bilhete escrito à mão, palavras de amor, os dois haviam se conhecido a pouco tempo, em um site de relacionamentos pessoais, embora sua mãe fosse contra o relacionamento ela insistia dizendo que ele era boa pessoa. Quando finalmente Elisa chegou na frente da Matriz, as três e meia da tarde em ponto, lá estava o namorado, impaciente, de um lado para o outro, cuspindo fogo, cigarro na boca, visivelmente embriagado. Elisa assustou-se com a atitude arrogante do namorado que nem deixou ela falar.

– Será possível sua sem noção, você não consegue ser pontual, eu disse três horas da tarde e não três e meia. O que você ficou fazendo o dia todo nessa droga de centro?

– Meu Deus Marcelo, o que é isso, você bebeu? Eu não acredito que você bebeu novamente, você sabe que não pode beber Marcelo, o médico já te disse isso. Você é um insensível, troglodita, eu estava resolvendo os meus problemas sabia, não estava andando a toa por aí. 

– E o que tanto você fez por aí? Diga o que droga você ficou fazendo a manhã toda? Eu bebi sim e você não tem nada a ver com isso.

– Vocês homens, são todos iguais, não conseguem perceber nada mesmo. Quer saber de uma coisa, vai embora Marcelo, me deixa em paz, a mamãe tinha razão, foi um erro esse nosso relacionamento, foi um erro.

– Se é assim que você quer, por mim tudo bem, eu prefiro ficar em casa do que aqui com sua chatice.

Lágrimas nos olhos de Elisa, o olhar fixo no chão, nas mãos o embrulho com o perfume, ela apertou o passo, não queria que o noivo a seguisse, olhou para trás pelo menos umas duas vezes, ao longe Marcelo apenas olhava a namorada distanciar-se, quando de repente, sem perceber Elisa atravessou o sinal vermelho, um corsa branco veio em alta velocidade e a acertou em cheio, a pancada foi tão forte que arremessou Elisa na parede da calçada oposta, o perfume voou alto, caiu ao seu lado, houve profundo silêncio naquele momento… Desesperado com a trágica cena que acabava de presenciar, Marcelo correu para Elisa, mas não havia mais tempo. O  corpo estirado no chão, ao lado da poça de sangue e o vidro de perfume quebrado, o bilhete escrito salpicado de sangue, lágrimas nos olhos de Marcelo, um pedido desesperado de perdão que jamais será ouvido, jamais, jamais…

Autor: Tiago Geraldo Macedo Pena

A moça tecelã

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite.
E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os
fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca
acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira
grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas
nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve,
a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os
pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a
acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do
tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis
que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de
leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia
tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela
primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida,
começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos
poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado,
sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos
sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi
entrando na sua vida.
Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria
para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os
esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas
todas que ele poderia lhe dar.
– Uma casa melhor é necessária, — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram
dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e
pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter
palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra
com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e
escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A
noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto
sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu
tear o mais alto quarto da mais alta torre.
– É para que ninguém saiba do tapete, — disse. E antes de trancar a porta à chave,
advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os
cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que
queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o
palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar
sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas
exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se
ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e,
jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os
cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio
e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu
para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado,
olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos
sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe
pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi
passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do
horizonte.

Autora: Marina Colasanti

Leilão de jardim

“Quem me compra um jardim com flores?
Borboletas de muitas cores,
lavadeiras e passarinhos,
ovos verdes e azuis nos ninhos?

Quem me compra este caracol?
Quem me compra um raio de sol?
Um lagarto entre o muro e a hera,
uma estátua da Primavera?

Quem me compra este formigueiro?
E este sapo, que é jardineiro?
E a cigarra e a sua canção?
E o grilinho dentro do chão?

(Este é o meu leilão.)”

Autora: Cecília Meireles

Azul

Acabo de abrir as cortinas para olhar o céu. É que o dia está imensamente lindo e eu não consigo pensar em uma forma mais adequada para iniciar esse texto. Na verdade, o tema central não diz respeito ao clima do dia, mas achei que a alusão talvez funcionasse, já que a cor anteriormente escondida pelas cortinas sempre me inspira. E a cor é, mais precisamente, azul. Azul porque é a cor predominante dos meus céus favoritos (os céus de outono), azul porque é a cor que amo, que me cativa, que me paralisa. Porque as minhas memórias mais antigas como aluna estão associadas ao meu primeiro contato num universo colorido e mágico: o Jardim de Infância Mundo Azul. E porque há quinze anos, nesse mesmo local, a minha primeira palavra direcionada a minha primeira professora foi azul.                                                                             

Bem, após introduzir o texto de uma maneira bem peculiar, é chegada a hora de dar início ao que realmente interessa. Terei que ser muito breve, pois já gastei um parágrafo e meio com a tentativa de uma inspiração. Então, sem mais delongas, faço questão de aproveitar a menção anterior as minhas memórias. Lá atrás, na distância do tempo, há quinze anos, quando eu ainda era uma menininha de quatro e cinco anos, comecei a ser alfabetizada no Mundo Azul. Foram dois anos de muitas cores, tentativas de entender o mundo, desenhos, lápis, cheiro de infância, letras avulsas e amigáveis para uma criança tímida e quieta.                                              

Todo meu processo de alfabetização foi transferido para uma nova escola no Paraná, aos seis anos de idade. Lembro-me do meu primeiro dia de aula (ou um dos) em que a professora estava falando sobre a junção de duas letras, que formariam um determinado som. Então, ela perguntou para a turma: “B e A?”. Eu, sentada em uma daquelas mesas redondas, coletivas e coloridas, respondi orgulhosamente: “BA!”. Ela instantaneamente olhou e apontou para mim repetindo a pergunta, como se estivesse me parabenizando, de modo que eu repeti a resposta, alegre por saber e mostrar a todos que estava certa.                                                                        

Não tive dificuldades ao ser alfabetizada, mas admito que ainda hoje faço confusão com a sequência das últimas letras do alfabeto. Na realidade, algo sobre a escrita me trouxe muito incômodo quando pequena e eu não sabia lidar com isso. Nasci com hiperidrose, o que faz com que minhas mãos suem em excesso e sem causa. Lembro-me de uma situação na sala de aula em que a professora nos entregou folhas mimeografadas para uma atividade. Após eu colar no caderno e iniciar a atividade nela, a minha folha desfigurou-se pelo suor (muito suor!). Aos sete anos, fiquei muito constrangida e a partir daí, percebi que algo era diferente em mim. Muitas situações embaraçosas surgiram e tive que aprender a lidar com isso. Eu odiava quando pediam para dar as mãos! Felizmente, estou prestes a experimentar um produto alemão chamado Antyhidral e que promete dar um jeito nisso, apesar de não haver cura.                           

Bem, posso dizer que meu primeiro evento de letramento fora da educação foi com cartinhas. Escrevia muitas cartinhas, principalmente para a minha tia. Era realmente uma atividade muito divertida para mim, e eu ficava muito feliz em escrever cartas. Segue anexo:  

img_8240.jpg

Depois das cartinhas, passei para uma experiência diferente. Comecei a escrever em diários. Meu diário mais antigo é cheio de erros ortográficos (como você pôde conferir na carta acima) e hoje é engraçado reler tudo que escrevi. Percebo que ter registrado minha vida em diários foi uma das coisas mais inteligentes que já fiz e pretendo manter esse exercício vivo por muito tempo. Quero um dia ler e recordar cada detalhe da minha vida, cada etapa, cada transformação – e derramar algumas lágrimas de emoção, talvez.                                               

Se por um lado a escrita me conquistou rapidamente, por outro, a leitura não ganhou espaço na minha vida tão cedo. O primeiro livro que li fora da literatura infantil, gibis ou revistas foi uma versão curta de Beleza Negra, escrito por Anna Sewell, mais ou menos aos treze anos. Li-o durante as aulas na biblioteca da escola e apesar de ter gostado, de realmente adorar o ambiente, ler livros era um exercício cansativo para mim. Não conseguia compreender como era possível as pessoas lerem tantas páginas! Os próximos foram Aventura no Império do Sol, de Silva C. Franco, cujo livro me ensinou que não posso ler em carros, e o mangá Cinderalla de Junko Mizuno. Depois desses, estagnei. Eu simplesmente não pensava em livros, em ler.      

Quando adolescente, costumava ver minha tia e minha mãe lerem e impressionava-me a rapidez com que elas o faziam. Essa ideia parecia-me muito bonita e quando me dei conta, estava lendo. Lia livros de literatura juvenil, como Diário de um Banana e Querido Diário Otário. De O Pequeno Príncipe passei para romances de vampiros (pois é…) e finalmente conheci Pollyanna de Eleanor H. Porter, o livro que foi decisivo para a minha trajetória como leitora. Foi definitivamente um marco inicial a uma profunda paixão pela leitura. A partir daí, posso citar outros títulos que acrescentaram em mim doses de amor por livros. Não posso deixar de mencionar a Bíblia, que é o livro para se ler e reler, reler, reler, reler, reler…                                    

Hoje, leitura e escrita fazem parte de tudo que faço. Para espairecer, fazer trabalhos da universidade, organizar-me na agenda, fazer anotações, escrever no diário, pesquisar, estudar, listar compras, conversar nas mídias sociais e enfim, tudo em que é possível. Agora, eu realmente preciso finalizar esse texto, mas não sei como. O que sei é que, em uma cidade chuvosa como a minha, deve-se aproveitar dias bonitos e ensolarados como esse. Portanto, deixe-me ir apreciar o lindo azul ao som de gorjeios incansáveis.

Autora: Bruna S. Furlan
Escrito em junho de 2017

Apelo

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Apelo [conto escrito por Dalton Trevisan]