Apelo 

Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor.

Apelo [conto escrito por Dalton Trevisan]

Teus olhos

Mas o que dizer dos teus olhos?
Todas as cores a eles pertencem;
mel quando levados ao sol,
como jóias de âmbares.

Oferecem-me um fascinante azul,
o qual não hesito em aceitar
pois certamente me arrebatam
aos céus de outono, que amo.

Escarlate abrasador da minha face
quando encontro a tua, na mais
fluída explosão silenciosa do meu peito.

Que dizer dos teus olhos!
Quero-os para a vida toda,
fitar e decifrar, amar tuas cores.

Autora: Bruna S. Furlan
Escrito em 17 de junho de 2017 

O que é arte?

Considerações acerca da concepção de arte de Ferreira Gullar

A arte existe porque a realidade não nos basta, é o que nos fala o ensaísta, poeta e jornalista brasileiro Ferreira Gullar em um de seus ensaios (A pouca realidade) publicado na Folha de S. Paulo, “Copiar a realidade é chover no molhado”, continua. Para ele, a arte cria um novo real. Sabemos que este real é inexistente, mas imaginário, portanto, “real”. Ele reafirma sua concepção em “Toda arte é atual”: Não se faz arte para imitar a vida, mas sim para inventá-la. 

Guiados pela ideia de que a arte não deve funcionar como imitação da vida (da natureza, do universo, do material, de nós), é muito pertinente refletirmos acerca do conceito da mesma. Existem gostos, pensamentos, histórias, necessidades, percepções e diversas outras particularidades que levam um indivíduo a admirar uma pintura mas não outra. A questão é que, ainda pensa-se em arte como algo que para um, tal coisa o é, mas para outro, talvez não o seja.

Pois, afinal, o que é arte? Será que realmente não se faz arte para imitar a vida? Ou será que sim, que também se faz para isto? Será que o que é arte para um, pode não ser para outro? Será que o que alguém pensa a respeito de um quadro, é o que todos pensam? São muitos os questionamentos que podem e devem ser levantados através do conceito de arte. Mas a verdade é que não  há como definir sua essência baseando-se em um caráter único. Não há uma definição pronta, universal e absoluta para a arte, mas há, sem dúvidas, obras de arte.

Quando falamos em arte, assim como em literatura, consequentemente falamos em história. Na história da humanidade, dos feitos, dos registros, dos movimentos e legados, toda história é um sucessão de fatos que resulta na maneira do contemporâneo ser o que é. Nada seria como é sem o seu passado de acontecimentos. É assim que acontece na arte, que frente às diversas mudanças e novidades, encontra uma nova forma de se manifestar.

Assim, sintetizá-la torna-se algo muito difícil, visto que está em um processo de “metamorfose”, e a cada há uma nova construção. Entretanto, uma coisa é certa: é possível conceituar a arte rupreste, por exemplo, pois para sê-la, é necessário haver suas especificações, suas características. O mesmo funciona para outros movimentos artísticos, todavia, aqui falamos da arte em sua essência geral, que é demasiadamente ampla.

Para Ferreira Gullar, “o realismo não é chato apenas nas artes plásticas; ele o é também na literatura”, como afirma no segundo ensaio supramencionado. Porém, trata-se de uma opinião particular. Nada faz um obra realista menos arte do que uma obra impressionista, por exemplo. Existem os admiradores da arte realista tanto em pinturas como em livros.

Mais a frente no mesmo texto, Toda arte é atual, Gullar cita a subjetividade simbolista. É importante pensar em simbolismos quando se tratam de obras artísticas. Como se sabe, o simbolista tem a ver também com a função de um objeto. Por isso, além de perguntarmos o que é arte, é interessante perguntarmos também qual a sua função em determinada situação.

Analisemos a obra “A fonte”, de Marcel Duchamp, considerada uma obra de arte:

duchamp-fonte

Pensemos no objeto, “um mictório, um vaso sanitário masculino” em dois ambientes: um, o qual seria mais óbvio, no banheiro, e outro, no museu. Neste, há uma ressignificação da função desse objeto. Ele deixa de ser originalmente o que é, e passa a exercer uma nova função, provocando um novo olhar; sendo uma obra de arte. Já em seu ambiente “mais cabível”, ele volta a ser simplesmente um objeto sem qualquer ligação com a arte.

Assim, é notório que o conceito de arte e as concepções que tornam um objeto artístico, têm relação com a situação, o contexto. Um quadro exposto em um museu exerce um papel diferente do quadro que está exposto em uma sala de estar. Sendo assim, a passo que os contextos se transformam, a arte se transforma também. É o que o ensaísta afirma em seus dois textos, que ao revisitar uma obra, “percebemos um deslumbramento a mais do mundo”.

Como, então, poderíamos avaliar aquilo que está em constante transformação? Se buscarmos um conceito demarcado para a arte, estaríamos retirando a subjetividade intrínseca a ela, já que a arte provoca (ou não) em cada ser diferentes emoções. Restringir-se-ia a capacidade humana de criar e recriar universos imaginários que a partir de uma nova situação, permitem um novo olhar. A capacidade que, “durante milênios, contribuiu para fazer de nós seres culturais” (Gullar, 2010).

Autoras: Bruna S. Furlan e Beatriz M.
Escrito em abril de 2017
Referências:
GULLAR, Ferreira. A pouca realidade. Folha de S. Paulo, São Paulo. 07 de mar 2010.
GULLAR, Ferreira. Toda arte é atual. Folha de S. Paulo, São Paulo. 29 de setembro 2012.

Memorial da minha vida

Há quase dezoito anos eu nasci e foi meu pai quem escolheu meu nome. Eu não estava nem em meu primeiro lar ainda, quando minha irmãzinha de dois anos ficou emburrada e praticamente muda com minha mãe ao me visitar na maternidade. Provavelmente por ciúmes, ou por simples estranhamento do novo bebê que passara a ter toda a atenção. 

Quando pequena, eu era a “menina do galo”, pois eu sempre caia de rosto no chão, batia a testa e ganhava um belo galo. Lembro-me do meu primeiro galo, inclusive é a lembrança mas antiga que tenho. Eu tinha dois ou três anos e enquanto meu pai colocava desenho para eu assistir, subi na cômoda, passei para a janela e… BUM! Minha mãe, que estava regando as plantas, veio correndo em minha direção e eu lembro direitinho dessa cena.

Nunca aprendi de fato a nadar, quer dizer, sei boiar e nadar “cachorrinho”, se é que isso conta. Em compensação, aprendi a andar de bicicleta bem cedo, entre quatro a cinco anos. Lembro-me também da primeira volta que dei de bicicleta sem rodinhas. Minha irmã viu e ficou impressionada!

Papai era marceneiro e fazia vários brinquedos de madeira para nós. Ele fez um patinete e uma casinha incríveis! A casinha era grande e rosa, tinha até escadas e o chão era brilhante.

Cresci brincando com minha irmã e as crianças da vizinhança. Minha mãe sempre adorou plantas, de modo que em nossa casa nunca faltaram flores, trepadeiras e árvores… Todos os dias beija-flores passeavam ao redor da casa. Isso tornou minhas lembranças mais coloridas.

Fui a casula da casa até meu irmão nascer, quando eu tinha nove anos. Nós havíamos nos mudado e estávamos morando no lado da casa dos meus avós. Pouco antes do meu irmão nascer, nós já tínhamos outra nova integrante na família, uma pinscher de cor café com leite, a querida Baby. Ela veio com mel na caixinha, pois a mulher de quem meu pai a comprou disse que ela adorava mel. E adora mesmo!

Com dez anos eu voltei para meu primeiro lar, onde havia sido construída nossa nova casa. Não foi difícil me adaptar, pois eu já estava familiarizada com o bairro e os vizinhos. Logo, fiz vários amigos, nós brincávamos todos os dias na rua e era sempre muito engraçado. Foram bons tempos!

Antes de eu completar doze anos, comecei a fazer curso de inglês com minha amiga. Fui meio desleixada com os estudos, por isso hoje, estudo o que não estudei na época. Mas valeu a pena, pois eu descobri que sou apaixonada por línguas estrangeiras. Também fiz aulas de handebol e vôlei. Apesar de não me dar muito bem no mundo dos esportes, eu gosto bastante.

Terminei o ensino fundamental e mudei de escola. No início, eu estava odiando. Só conhecia minha irmã e achava aquela gente nova muito chata. As pessoas realmente eram diferentes dos meus amigos, mas conforme fui as conhecendo percebi que isso não as tornavam chatas.

No ensino médio eu mudei bastante, comecei a ver a vida de outra forma, afinal, ela havia mudado. Comecei a levá-la mais a sério. Quando a gente cresce, a gente percebe que nem tudo é como parecia ser, ou como nos dizem que é. Hoje eu sei o quão importante é traçar metas e dedicar-se a elas. Mas também reconheço a importância dos nossos valores, pois eles nos definem. E no final de tudo, não são nossos bens que importam, mas sim quem nós realmente fomos. 

Autora: Bruna S. Furlan
Escrito em março de 2016

Somewhere I have never traveled

Poems I like #1

“somewhere I have never travelled, gladly beyond

any experience, your eyes have their silence:
in your most frail gesture are things which enclose me,
or which I cannot touch because they are too near

your slightest look easily will unclose me
though i have closed myself as fingers,
you open always petal by petal myself as Spring opens
(touching skilfully, mysteriously) her first rose

or if your wish be to close me, I and
my life will shut very beautifully, suddenly,
as when the heart of this flower imagines
the snow carefully everywhere descending;

nothing which we are to perceive in this world equals
the power of your intense fragility: whose texture
compels me with the color of its countries,
rendering death and forever with each breathing

(I do not know what it is about you that closes
and opens; only something in me understands
the voice of your eyes is deeper than all roses)
nobody, not even the rain, has such small hands”

E.E Cummings (1894-1962)
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“nalgum lugar em que eu nunca estive, alegremente além
de qualquer experiência, teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,
ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra
embora eu tenha me fechado como dedos, nalgum lugar
me abres sempre pétala por pétala como a Primavera abre
(tocando sutilmente, misteriosamente) a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado, eu e
minha vida nos fecharemos belamente, de repente,
assim como o coração desta flor imagina
a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala
o poder de tua imensa fragilidade: cuja textura
compele-me com a cor de seus continentes,
restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha
e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas”

Tradução: Augusto de Campos

 

O espetáculo da vida

Eu estava debruçada sob a janela e as admirava minuciosamente. Elas eram brancas e moviam-se lentamente. Eu as observava e as sentia, ora perto, ora longe. Ao fundo, podia contemplar as mais belas pinceladas que variavam de um azul cinzento a um laranja ardente como fogo e finalmente um cor-de-rosa tão delicado que eu podia sentir sentir o mais tênue toque de uma borboleta pousando sobre meus dedos. Meu corpo invejou o balanço harmônico dos pássaros que sobrevoavam aquela imensidão colorida.

Conforme eu delirava a doçura daquele momento, meus ouvidos atentaram-se ao gracioso som de folhas que dançavam entre si em ritmo devagar. As batidas do meu coração reproduziam a mais intensa melodia e eu sentia-me tranquila como uma pena que paira sobre o ar. Estava contente por sentir a mansa brisa tocando minha pele. Fechei os olhos e respirei fundo. Minha alma jubilava-se ao absorver lentamente aquele cheiro suave. Era o cheiro da vida e não havia nada mais que pudesse ser tão gratificante.

Quando abri os olhos, os rabiscos do céu já não eram os mesmos. Notei que a escuridão tomava conta do meu cenário arrebatador. As árvores e montanhas não eram mais verdes e sim, sombras negras das quais eu podia apenas captar suas formas. Aquela brisa que havia me tocado ao pôr-do-sol era agora gelada e fazia meu corpo estremecer. Meus pensamentos estavam a mil e dessa forma mais um dia chegava ao fim, sob o silêncio e admiração de alguém que se comovia ao apreciar tamanha complexidade.

De súbito, fui tomada por um sentimento e meu coração foi invadido por um deslumbre que sensibilizava-me profundamente. Meus olhos estavam pasmados por jamais haver percebido a beleza da obra viva que resplandecia diante de mim. Permaneci imóvel por alguns instantes, permitindo-me ser guiada por aquele sentimento que florescia no interior do meu peito.

Não havia nada mais pertinente naquele momento do que concentrar-me em uma prece para expressar minha gratidão àquele que me presenteou com as mais imensuráveis maravilhas e eu o fiz com grande devoção. Percebi que escorriam lágrimas do meu rosto ao sentir uma gota tocar o dorso da minha mão.

Ainda ecoava dentro de mim o canto dos pássaros que agora descansavam em galhos finos de dracenas. Eu estive o tempo todo em um espetáculo e todos aqueles elementos trabalhavam sem cessar. A maior e mais branca peça daquele cenário era agora a lua. Sua formosura tocou meu ser e eu senti enorme deleite por saber que ela estava lá.

Estava prestes a me retirar quando outra vez me senti cativada; o espetáculo não tinha fim. Eu as pude sentir perto, apesar de observá-las de muito, muito longe. Havia milhares delas e o brilho reluzia em meus olhos. Notei um leve sorriso nascendo no meu rosto e continuei ali, admirando as estrelas. Eu havia sentido coisas que nunca sentira antes e meu espírito enlaçou-se a gratidão. Então, respirei fundo e finalmente fechei a janela.

Autora: Bruna S. Furlan
Escrito em maio de 2016

Quando o amor brota em alguém

Ao olhar para o mundo acima, tudo quando podia enxergar era a intensa alvura que consumia o céu naquela tarde. Seus fartos cabelos cor de chocolate haviam acabado de ser penteados e ela se balançava lentamente em uma velha cadeira de balanço. O largo vestigo coral que a cobria não era capaz de esconder a barriga acariciada por mãos que expressavam demasiada ternura e que num movimento de vai e vem declaravam profundo amor materno.

Tecia sonhos para a tão esperada chegada. Como seria tocar sua pele sensível? Como seriam o rostinho inocente, as mãozinhas miúdas? O imenso júbilo que sentia aquela mãe não cabia mais em seu peito, fazendo por deveras vezes transbordar de seus olhos cor de mel lágrimas de felicidade. Outras vezes, pegava-se imaginando, sorrindo involuntariamente.

Não tardou o céu a desmanchar-se em uma fina garoa que caia lentamento por todo o jardim já cheio de orvalho, e ela observava toda aquela lentidão. De súbito, um largo sorriso cresceu em seu rosto ao ver o homem chegar a casa. “Como se sente?”, indagou a voz viril, enquanto mirava o formoso rosto de sua amada. “Bem”, respondeu, expondo novamente o franco sorriso que fez derreter o coração daquele bravo homem, “…muito bem…”.

Se por um lado o silêncio insistentemente pairava no ambiente, por outro, o mesmo convertia-se em forte agitação no âmago dos três corações que latejavam vigorosamente. Dois inundados de verdadeira alegria, paixão ardente, e um, pequenino e frágil; pulsava o início de uma vida que transformaria as outras; fruto do laço de duas almas amantes.

A felicidade reinava em seu lar. Havia uma vida dentro de si, dentro de seu ventre; uma dádiva. O sangue viajava por veias finas e tenras, por órgãos pequenos que ainda estavam sendo formados. Os ossos delicados cresciam e fortaleciam-se junto à carne envolvida pelo tecido grácil e ainda enrugado.

Enquanto a magia efetuava-se dentro dela, meditava no dia em que o cobriria em uma manta e o carregaria em seus braços plenos de afeto, acariciaria os finos fios de cabelo e finalmente conheceria as feições já tão amadas.

Seria possível não se comover aquela mãe, que desde então, passara a enxergar tudo a sua volta com tamanha benevolência? Nunca revelara-se tão serena ou sentira dentro de ti tanto equilíbrio e sensatez. Aquela criança, pura e angélica que brotou no mais intrínseco de seu corpo a transformou em uma mãe, uma nova pessoa; a fez descobrir um sentimento diferente de qualquer outro.

Autora: Bruna S. Furlan
Escrito em 2016