A primeira vinda

Veio, na mais escura das noites, para um mundo ofegante, uma terra deserta. Veio no silêncio, para um mundo à espera, como uma sombra espera. Veio como uma onda, um pássaro crepuscular. Asas que rompem águas profundas, os anseios dos sonhos, os suspiros das almas. Veio com ternura, no murmúrio do que recém nasceu, na dor do coração ferido. Veio como um sussurro, suave como brisa nos prados. Veio na canção das estrelas. Veio como uma chuva, inesperado, enquanto os olhos se voltavam aos poderosos, seus punhos de ferro, seus espetáculos. Veio como névoa, como a lágrima da mãe, o suor do solo, o orvalho na teia de aranha, o gado no estábulo. Veio ao que era seu, foi as mãos abrir, seus braços estender, os olhos acender, e acordou, como flor desabrochando, como chama na escuridão, e todos que viram sua luz, entenderam. 

Dan Stevers
[ https://www.youtube.com/watch?v=b95TbzFZ7A0 ]

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Nova vida de união

Oh, sagrada união com a Perfeita Mente
Alegria sublime que só Tu podes dar;
Para o mundo morrem, vivendo em Ti somente
Os que tão preciosa pérola logram encontrar

Em Teus braços de amor eu me reclino,
Prendo-me a Ti e abandono os restos meus,
Minh’alma, alegre (pois morrer já sabe), 
Vida nova achou, no infinito Deus.

Continua, aprende esta lição da cruz,
Trilha o caminho por outros já trilhado
Os quais, considerando tudo como nada
Na morte para o eu, a vida de Deus têm encontrado. 

John Gregory Mantle
Do livro O Supremo Próposito de DeVern F. Fromke

Soneto 18

“Se te comparo a um dia de verão
És por certo mais belo e mais ameno
O vento espalha as folhas pelo chão
E o tempo do verão é bem pequeno.

Às vezes brilha o sol em demasia
Outras vezes desmaia com frieza;
O que é belo declina num só dia,
Na terna mutação da natureza.

Mas em ti o verão será eterno,
E a beleza que tens não perderás;
Nem chegarás da morte ao triste inverno:

Nestas linhas com o tempo crescerás.
E enquanto nesta terra houver um ser,
Meus versos vivos te farão viver.”

William Shakespeare

Prayer is the soul’s sincere desire

“Prayer is the soul’s sincere desire,
Uttered, or unexpressed;
The motion of a hidden fire
That trembles in the breast.

Prayer is the burden of a sigh,
The falling of a tear;
The upward glancing of an eye
When none but God is near.

Prayer is the simplest form of speech
That infant lips can try;
Prayer the sublimest strains that reach
The Majesty on high.

Prayer is the Christian’s vital breath,
The Christian’s native air;
His watchword at the gates of death;
He enters rest with prayer.

The saints in prayer appear as one,
In word, and deed, and mind;
While with the Father and the Son
Sweet fellowship they find.

O Thou, by whom we come to God,
The Life, the Truth, the Way,
The path of prayer Thyself hast trod—
Lord, teach us how to pray.”

 

Written by James Montgomery.

O sol não brilha para si mesmo

“Nada na natureza vive para si mesmo. Os rios não bebem sua própria água, as árvores não comem seus próprios frutos. O sol não brilha para si mesmo e as flores não espalham sua fragrância para si. Jesus não se sacrificou por si mesmo. Viver para outros é uma regra da natureza. Todos nós nascemos para ajudar uns aos outros. Não importa quão difícil seja a situação em que você se encontra, continue fazendo o bem aos outros” – Jorge Mario Bergoglio

O perfume quebrado

Algumas horas antes Elisa havia comprado uma bolsa nova em uma das lojas do centro, ela que tinha arrumando o cabelo, pintado às unhas e tirado as sobrancelhas. Elisa queria impressionar seu novo namorado, os dois tinham combinado de assistirem a um filme na tarde daquele sábado, Elisa estava animada. Eram duas horas da tarde, ela estava no centro da cidade desde as dez horas da manhã, correndo pra lá e pra cá, resolvendo uma coisa e outra, e, entre um afazer e outro ela ainda encontrou tempo para produzir-se para o namorado Marcelo, que, havia combinado com Elisa de encontra- lá na frente da matriz da praça central às três horas da tarde em ponto. Mas Elisa acabou atrasando-se um pouco, ela queria comprar um presente para impressionar Marcelo. O perfume escolhido, uma beleza, Balbec, edição especial, o presente embrulhado com cuidado, o bilhete escrito à mão, palavras de amor, os dois haviam se conhecido a pouco tempo, em um site de relacionamentos pessoais, embora sua mãe fosse contra o relacionamento ela insistia dizendo que ele era boa pessoa. Quando finalmente Elisa chegou na frente da Matriz, as três e meia da tarde em ponto, lá estava o namorado, impaciente, de um lado para o outro, cuspindo fogo, cigarro na boca, visivelmente embriagado. Elisa assustou-se com a atitude arrogante do namorado que nem deixou ela falar.

– Será possível sua sem noção, você não consegue ser pontual, eu disse três horas da tarde e não três e meia. O que você ficou fazendo o dia todo nessa droga de centro?

– Meu Deus Marcelo, o que é isso, você bebeu? Eu não acredito que você bebeu novamente, você sabe que não pode beber Marcelo, o médico já te disse isso. Você é um insensível, troglodita, eu estava resolvendo os meus problemas sabia, não estava andando a toa por aí. 

– E o que tanto você fez por aí? Diga o que droga você ficou fazendo a manhã toda? Eu bebi sim e você não tem nada a ver com isso.

– Vocês homens, são todos iguais, não conseguem perceber nada mesmo. Quer saber de uma coisa, vai embora Marcelo, me deixa em paz, a mamãe tinha razão, foi um erro esse nosso relacionamento, foi um erro.

– Se é assim que você quer, por mim tudo bem, eu prefiro ficar em casa do que aqui com sua chatice.

Lágrimas nos olhos de Elisa, o olhar fixo no chão, nas mãos o embrulho com o perfume, ela apertou o passo, não queria que o noivo a seguisse, olhou para trás pelo menos umas duas vezes, ao longe Marcelo apenas olhava a namorada distanciar-se, quando de repente, sem perceber Elisa atravessou o sinal vermelho, um corsa branco veio em alta velocidade e a acertou em cheio, a pancada foi tão forte que arremessou Elisa na parede da calçada oposta, o perfume voou alto, caiu ao seu lado, houve profundo silêncio naquele momento… Desesperado com a trágica cena que acabava de presenciar, Marcelo correu para Elisa, mas não havia mais tempo. O  corpo estirado no chão, ao lado da poça de sangue e o vidro de perfume quebrado, o bilhete escrito salpicado de sangue, lágrimas nos olhos de Marcelo, um pedido desesperado de perdão que jamais será ouvido, jamais, jamais…

Autor: Tiago Geraldo Macedo Pena

A moça tecelã

Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite.
E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte. Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os
pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a
acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis
que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de
leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia
tranqüila. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela
primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado. Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta. Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida. Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade. E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas
todas que ele poderia lhe dar.
– Uma casa melhor é necessária, — disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram
dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e
pressa para a casa acontecer. Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata. Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira. Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
– É para que ninguém saiba do tapete, — disse. E antes de trancar a porta à chave,
advertiu: — Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos! Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer. E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo. Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear. Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela. A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu. Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Autora: Marina Colasanti